segunda-feira, 31 de maio de 2010

Brasa


Brasa


Composição: Gabriel o Pensador / Lenine

Um poeta já falou, vendo o homem e seu caminho:
"o lar do passarinho é o ar, e não o ninho". E eu voei...
Eu passei um tempo fora, eu passei um tempo longe.
Não importa quanto tempo, não importa onde.
Num lugar mais frio, ou mais quente de repente,
Onde a gente é esquisita, um lugar diferente.
Outra língua, outra cultura, outra moeda.
É, vida dura, mas eu sou duro na queda.
Se me derrubar... eu me levanto, e fui aos trancos e barrancos,
Trampo atrás de trampo, trabalhando pra pagar a pensão
E superar a tensão do pesadelo da imigração.

Clandestino, imigrante, maltrapilho.
Mais um subdesenvolvido que escolheu o exílio,
Procurando a sua chance de fazer algum dinheiro,
No primeiro mundo com saudade do terceiro.
Família, amigos, meus velhos, meu mano,
- o meu pequeno mundo em segundo plano.
Eu forcei alguns sorrisos e algumas amizades.
Passei um tempo mal, morrendo de saudade.

Eu tô morrendo de saudade, tô morrendo de saudade...
Eu tô morrendo de saudade, tô morrendo de saudade...

Da beleza poluída, da favela iluminada,
Do tempero da comida, do som da batucada.
Da cultura, da mistura, da estrutura precária.
Da farofa, do pãozinho e da loucura diária.
Do churrasco de domingo, o rateio e o fiado,
A criança ali dormindo, o coroa aposentado.

(Eu tô morrendo de saudade, tô morrendo de saudade...)

Da mulata oferecida, do pagode malfeito,
De torcer na arquibancada pro meu time do peito.
A pelada sagrada com a rapaziada,
O sorriso desdentado na rodinha de piada.
Da malandragem, da nossa malícia,
Da batida de limão, da gelada (que delícia!)

(Eu tô morrendo de saudade, tô morrendo de saudade...)

Do jornal lá na banca, da notícia pra ler,
Das garotas dos programas da TV.
Do jeitinho, do improviso, da bagunça geral.
Do calor humano, do fundo de quintal.
Do clima, da rima, da festa feita à toa
- típica mania de levar tudo na boa -
Ddo contato, do mato, do cheiro e da cor.
E do nosso, o nosso jeito de fazer amor.

Agora eu sou poeta, vendo o homem a caminhar:
o lar do passarinho é o ninho, e não o ar. E eu voltei...
E eu passei um tempo bem, depois do meu retorno.
Eu e minha gente, coração mais quente, refeição no forno.
Água no feijão, tô na área, bichinho.
Se me derrubar... eu não tô mais sozinho.
Tô de volta sim senhor.
Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor.

Mas o amor é cego.
Devo admitir, devo e não nego,
Que aos poucos fui caindo na real,
Vendo como o Brasa tava em brasa, tava mal.
Vendo a minha terra assim em guerra, o meu país...
Não dá, não dá pra ser feliz.
E bate uma revolta, e bate uma deprê.
E bate a frustação, e bate o coração pra não morrer.
Mas bate assim cabreiro.
Bate no escuro, sem esperança no futuro, bate o desespero.
Bate inseguro, no terceiro mundo (se for), com saudade do primeiro.
Os velhos, os filhos, os manos...
ninguém aqui em casa tem direito a fazer planos.
Eu forcei alguns sorrisos e lágrimas risonhas.
Passei um tempo mal, morrendo de vergonha.

Eu tô morrendo de vergonha, tô morrendo de vergonha...
Eu tô morrendo de vergonha, tô morrendo de vergonha...

Da beleza poluída, da favela iluminada,
Da falta de comida pra quem não tem nada.
Da postura, da usura, da tortura diária.
Da cela especial, da estrutura carcerária.
A chacina de domingo, o rateio e o fiado,
A criança ali pedindo, o coroa acorrentado.

(Eu tô morrendo de vergonha, tô morrendo de vergonha...)

Da mulata oferecida, do pagode malfeito.
Morrer na arquibancada por meu time do peito.
O salário suado que não serve pra nada,
O sorriso desdentado na rodinha de piada.
Da malandragem, da nossa milícia,
Da batida da PM, da porrada da polícia.

(Eu tô morrendo de vergonha, tô morrendo de vergonha...)

Do jornal lá na banca, da notícia pra ler,
Das garotas de programa dos programas da TV.
Do jeitinho, do improviso, da bagunça geral,
Do sorriso mentiroso na campanha eleitoral.
Do clima de festa, da festa feita à toa
- ridícula mania de levar tudo na boa -
Do contato, do mato, do cheiro da carniça.
E do nosso, jeito de fazer justiça.

Mas eu vou ficar no Brasa
Porque o Brasa é minha casa, casa do meu coração.
Mas eu vou ficar no Brasa
Porque o Brasa é minha casa,
e a minha casa só precisa de uma boa arrumação.

Muita água e sabão.
Ensaboa, meu irmão.
Não se suja não.
Indignação.
Manifestação.
Mais informação.
Conscientização.
Comunicação.
Com toda razão.
Participação.
No voto e na pressão.
Reivindicação.
Reformulação.
Água e sabão na nossa nação.
Água e sabão, tá na nossa mão.
(Tô morrendo de paixão, tô morrendo de paixão...)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Somos realmente livres?



13 de maio de 2010. São 122 anos de Abolição.

Não posso deixar de manifestar minha decepção e indignação, não somente pela situação do nosso povo negro, afro-descendente, mas também pela situação dos nossos índios, dos migrantes, imigrantes, mulheres, homossexuais, crianças, idosos que vivem à margem da sociedade.

Estou indignada, enfim, pelas injustiças - veladas ou não - que nós, os "não-brancos", ainda sofremos neste país.

Já vivi inúmeras situações constrangedoras, apenas pelo fato de ser negra. Já levei enquadrão da Rota no portão da USP, quando estava placidamente esperando o meu ônibus pra COHAB. Isso depois de trabalhar o dia inteiro e assistir mais de 4 horas de aula.

Já fui reprovada em muito processo seletivo de emprego, mesmo após ter ouvido por telefone: "ooooh!! que currículo maravilhoso!!". Pessoalmente, ao vivo, a história é outra.

Teve uma vez que eu encostei sem querer em uma senhora, no ônibus. Quando eu pedi desculpas, ela começou a se limpar com um lencinho. E houve também uma vez que eu passeava com a minha mãe (branca) e minha avó (índia), e perguntaram a elas se eu era a "secretária do lar".

Já perdi as contas de quantas vezes o meu marido (branco) teve que explicar que eu não sou a empregada dele, e sim que eu sou a esposa. Até imagino a cara de babá que eu teria, se um dia tivéssemos um filho e o moleque nascesse "clarinho" de olhos verdes (como os do meu sogro) ou azuis (como os do meu avô).

A situação da mulher negra continua complicada, pois ela ainda precisa conquistar com unhas e dentes (às vezes literalmente) o seu lugar ao sol. Por mais inteligentes e qualificadas que possamos ser, é uma pena que ainda sejamos preteridas por causa de nossa origem social e aparência. O mercado de trabalho prefere contratar pessoas de classe média, de cor clara, que lêem Zibia Gasparetto e acreditam em horóscopo de jornal (juro por Deus que eu vi isso em uma dinâmica de grupo).

O que o mercado precisa é de mentes para serem moldadas, para assim perpetuar a situação de escravidão que nunca terminou.

Lu

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Bom final de semana e bom senso!!

Bom Senso
Composição: Tim Maia

Álbum: Tim Maia Racional (1975)


Já virei calçada maltratada
E na virada quase nada
Me restou a curtição...

Já rodei o mundo quase mudo
No entanto, num segundo,
Este livro veio à mão.

Já senti saudade,
Já fiz muita coisa errada,
Já pedi ajuda,
Já dormi na rua.

Mas lendo atingi o bom senso...
Mas lendo atingi o bom senso
E a imunização racional.

terça-feira, 27 de abril de 2010

This Is It: a conquista de um coração


por Luciene Ribeiro dos Santos



Domingo, 8 de novembro de 2009.

A noite anterior havia sido estranha. Dormi muito pouco. Nos raros instantes de sono, sonhei que não tinha chegado a tempo e tinha perdido a sessão de This Is It no cinema.

Ansiedade, muita ansiedade. Mistura de sensações: a vontade de assistir, a saudade, o medo de não agüentar...

Os ingressos estão comprados há mais de um mês... A última oportunidade de ver Michael, o grande sonho da minha vida. Não posso perder... preciso me despedir dele... não posso perder!

Sim, eram dois ingressos: um pra mim e um para o Beto.

Beto é um ser descolado: leonino, praieiro, meio hippie e meio roqueiro. Os cabelos grisalhos longos e revoltos, os colares e as tatuagens (que fazem dele um gibi ambulante) dão a impressão de que um dia ele foi pra Woodstock a pé, e ficou por lá.

No início, quando nos casamos, achei que ele não vinha morar na minha antiga casa: por não poder mudar os meus LPs do Michael de lugar e de ordem cronológica (“ô virginiana chata, tem que ser tudo pela ordem!!”), por não ter espaço para guardar seus livros e CDs (“aí não, Beto!! é o meu cantinho do Michael!!”), e por ter que topar todos os dias com um enorme pôster da revista Black & White na parede.

Mas eu também não reclamo dos bongôs, das matracas, das esculturas e bonequinhos estranhos, nem das duas calopsitas... e assim vamos levando.

Beto suportou comigo heroicamente o 25 de junho, o 07 de julho e o 03 de setembro, mesmo sem entender por que eu chorava tanto.

Enfim, chegou o grande dia de assistirmos juntos ao filme mais esperado da minha vida, This Is It. Beto fazia questão de ir comigo. Talvez pelo costume de sempre sairmos juntos, porque na verdade ele realmente não liga muito pra "esse negócio de música pop".

Chegamos ao shopping com meia hora de antecedência, mas eu queria logo entrar na sala de projeção. “Calma Preta, calma!”

Éramos a sensação do shopping, pois estávamos usando camisetas iguais que eu comprei especialmente para esse dia. E ele vestiu sem reclamar (Keep Moonwalking, valeu Jackie!).

Beto curtia as vitrines, me puxava pela mão, tentava me distrair... Voltamos lá fora para fumar um cigarro, e fizemos uma pausa para um gole. Ele fazia de tudo para tentar acalmar os meus nervos. Mas eu só queria entrar logo naquela bendita sala.

Entramos, e ele fez questão de que nos sentássemos bem na frente, na segunda fila. “Se é pra curtir o filme do Michael, vamos curtir direito!” (embasbaquei).

Aquele monte de trailers me dava nos nervos mais ainda.

Então, todas as luzes se apagaram. Começou a subir o letreiro de abertura do filme. Beto segurou a minha mão. (embasbaquei - nº 2. Não esperava que ele tivesse essa reação.)

Wanna Be Startin’ Somethin’ já era previsível, pois Michael sempre abre os shows com essa música. Mas a visão do meu ídolo tão grande naquela tela, tão perto e ao mesmo tempo tão longe de mim... o soluço sufocado explodiu, e as lágrimas vieram sem que eu ousasse reprimir.

Chorei os 2 mil litros que eu havia previsto, e mais um pouco.

Beto apertou mais a minha mão, e só dizia: “Calma, Preta. Calma Lu, não fica assim.”

O filme era um deslumbre... Mas, a cada cena que se passava, me doía mais o coração. Eu queria abstrair, tentava cantar, queria pensar que estava em um grande show, e que a tela era um grande palco ali na minha frente... mas nada me fazia esquecer a perda do meu ídolo, do meu grande amor e inspiração.

Em um intervalo, olhei para o Beto entre as minhas lágrimas. Ele realmente prestava atenção, absorto em todos os detalhes do filme.

Beto começou a se balançar com a nova coreografia de They Don’t Care About Us, e me fez dar uma risada no meio do mar de choro.

A cena de Human Nature, que eu já havia vislumbrado em trailer na ::mjBeats, se materializou gigante, diante dos nossos olhos. Beto me perguntou se o Michael ia cantar “Why”, aquela música do Thriller. Eu entendi e disse sorrindo que sim.

Michael começou a cantar, e Beto me sussurrou que adorava essa música. “Pô, quantos bailinhos eu dancei com a música desse cara!”

No ponto mais alto da música, quando Michael soltava o vocal do mais profundo do seu coração, Beto levou a mão aos olhos e chorou.

O que vi, daí em diante, foi uma verdadeira conversão. Beto pirando com a aula musical de The Way You Make Me Feel (“meu, esse cara sabe o que tá fazendo!!”), batendo nas cadeiras do cinema a percussão de I Just Can’t Stop Loving You (nessa parte, o pessoal que estava na primeira fila começou a xingar a gente e mudou de lugar).

Ele tentava cantar as músicas comigo, e fiquei novamente embasbacada ao vê-lo erguendo os punhos e vibrando com as surpresas preparadas por Michael, música após música.

Tenho vontade de descrever aqui todas as emoções que senti naquele dia, mas não poderia fazer isso sem contar o filme todo, gravado a ferro e fogo em minha mente e meu coração.

Quando tudo parecia ter terminado – quando os créditos começaram a subir, e as luzes do cinema começaram a se acender –, Beto não se levantou. Fechou os olhos para ouvir a música nova, This Is It, e ficou até o fim. Em seguida, postou as mãos para fazer a sua oração budista, e orou por Michael.

Nos abraçamos para chorar juntos. O abraço que ele me deu foi grato e emocionado. “Preta, eu curti muito! Esse cara era iluminado. O mundo perdeu um grande cara.”

This Is It conquistou mais um coração.

Não discriminemos os novos fãs, que somente agora viram a luz; pois nunca é tarde para amar.

Felizes todos aqueles que puderam amar Michael Jackson em vida; e bem-vindos todos aqueles que aprenderão a amá-lo desde agora, e para sempre.
This is it.

Publicado originalmente em 19/11/2009 na ::mj Beats - www.reidopop.com

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Viva Tiradentes!!


Créditos da charge: http://maniadehistoria.wordpress.com

Eu não esqueci o que significa o 21 de Abril.




Romance XXXIV ou de Joaquim Silvério


Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério:
que ele traiu Jesus Cristo,
tu trais um simples Alferes.
Recebeu trinta dinheiros...
- e tu muitas coisas pedes:
pensão para toda a vida,
perdão para quanto deves,
comenda para o pescoço,
honras, glórias, privilégios.
E andas tão bem na cobrança
que quase tudo recebes!

Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério!
Pois ele encontra remorso,
coisa que não te acomete.
Ele topa uma figueira,
tu calmamente envelheces,
orgulhoso e impenitente
com teus sombrios mistérios.
(Pelos caminhos do mundo,
nenhum destino se perde:
há os grandes sonhos dos homens,
e a surda força dos vermes.)

Cecília Meireles

terça-feira, 20 de abril de 2010

Poema sem título


Para estar contigo dois minutos
Duas palavras lembradas, sentimentos dissolutos
O tempo das curvas em branco nas pálpebras das paisagens
- faço-me verso.

Para estar contigo ainda duas horas
Deixar-te mapear os meus suspiros
Ouro desterrado, aragens, zéfiros, auroras
- faço-me espaço.

Para ser contigo o mistério das palavras
De teu desejo contido, teu gemido
Espírito e corpo, memória e geografia
- faço-me tempo e saudade.

Para estar contigo e ser verdade,
Faço-me poesia
- Eternidade.

* enfiei esse pé na jaca em 30 de maio de 2001.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Perfeição


Legião Urbana
Composição: Renato Manfredini Jr. - Renato Russo

Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos,
Covardes, estupradores e ladrões.

Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado que não é nação.

Celebrar a juventude sem escolas,
As crianças mortas...
Celebrar nossa desunião.
Vamos celebrar Eros e Thanatos,
Persephone e Hades,
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade.

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais...
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação

Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre e todos os impostos,
queimadas, mentiras e seqüestros...
Nosso castelo de cartas marcadas,
O trabalho escravo, nosso pequeno universo.

Toda a hipocrisia e toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã!

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir, não se ter a quem amar.
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração...

Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é anormal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
- A lágrima é verdadeira.
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão.

Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação

Vamos celebrar o horror de tudo isso
Com festa, velório e caixão...
Tá tudo morto e enterrado agora!
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou essa canção...

Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão.

Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha! que o que vem é perfeição...

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Pausa para o xixi... rsrsrs

Just a wee stop!! (Singapore)

Créditos da foto: Simon Sonntag - aluno de Matemática da TU München - Alemanha

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Soneto de Intimidade


Nas tardes de fazenda há muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.

Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve

Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.

Vinicius de Moraes

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Olhos Coloridos (Sarará Crioulo)



Composição: Macau
Intérpretação: Sandra de Sá / Funk Como Le Gusta

Os meus olhos coloridos
Me fazem refletir
Que eu estou sempre na minha
E não posso mais fugir...

Meu cabelo enrolado
Todos querem imitar
Todo mundo baratinado
Também querem me enrolar...

Você ri da minha roupa
Você ri do meu cabelo
Você ri da minha pele
Você ri do meu sorriso

A verdade é que você
(Todo brasileiro tem!)
Tem sangue crioulo
Tem cabelo duro
Sarará crioulo!

Sarará crioulo!
Sarará crioulo!
Sarará crioulo!
Sarará crioulo!

* Bom final de semana, galera!! Sarará hei, sarará hô!! :)

domingo, 4 de abril de 2010

Tem Que Acontecer - Zeca Baleiro

Composição: Zeca Baleiro


Não fui eu, nem Deus, não foi você, nem foi ninguém
Tudo que se ganha nessa vida é pra perder
Tem que acontecer, tem que ser assim
Nada permanece inalterado até o fim
Se ninguém tem culpa, não se tem condenação
Se o que ficou do grande amor é solidão
Se um vai perder, outro vai ganhar
É assim que eu vejo a vida e ninguém vai mudar

Eu daria tudo pra não ver você cansada
Pra não ver você calada
Pra não ver você chateada, cara de desesperada
Mas não posso fazer nada
Não sou Deus, nem sou senhor...

Eu daria tudo pra não ver você chumbada
Pra não ver você baleada
Pra não ver você arriada, a mulher abandonada
Mas não posso fazer nada
Eu sou só um compositor popular

Eu daria tudo pra não ver você zangada
Pra não ver você cansada
Pra não ver você chateada, cara de desesperada
Mas não posso fazer nada
Não sou Deus, nem sou senhor...

Eu daria tudo pra não ver você chumbada
Pra não ver você baleada
Pra não ver você arriada, a mulher abandonada
Mas não posso fazer nada
Eu sou só um compositor popular.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Festa do Nascimento do Boi - sábado (03/04)


Venham assistir no dia 03/04 (sábado), a partir das 16:00, à mais bela festa de rua de São Paulo, no Morro do Querosene (bairro próximo ao Instituto Butantã). O Bumba-Meu-Boi, comandado por Tião Carvalho e o pessoal do Grupo Cupuaçu há mais de 20 anos, reúne gente colorida e bonita, muitos estudantes, dançantes e brincantes. Tem barraquinhas com tapioca, pernil, pastel, cuzcuz e muita cerveja.

Esta será a Festa do Nascimento do Boi, que nasce no Sábado de Aleluia, é batizado no mês de junho e morre no fim do ano, perto de Finados. E renasce no ano seguinte, lógico, pois aí está a graça da coisa. Também se apresentam grupos de maracatu, boizinho-mirim, caboclinhos, cantadores e cirandeiros.

A comunidade maranhense da cidade soube manter acesa no Butantã uma das mais belas tradições populares brasileiras, com toadas lindas e aquele indescritível ritmo das matracas. Só vendo (e ouvindo)!

Local: Praça do Boi, no Morro do Querosene - Butantã.

Abração para todos!!
Lu

Clique no mapa para ampliar:

terça-feira, 9 de março de 2010

O buraco do espelho


O buraco do espelho está fechado.
Agora eu tenho que ficar aqui,
com um olho aberto, outro acordado,
no lado de lá onde caí.

Pro lado de cá não tenho acesso,
mesmo que me chamem pelo nome,
mesmo que admitam meu regresso.
Toda vez que eu vou, a porta some.

A janela some na parede.
A palavra de água se dissolve.
Na palavra sede, a boca cede,
antes de falar, e não se ouve.

Já tentei dormir a noite inteira,
quatro, cinco, seis da madrugada.
Vou ficar ali nesta cadeira,
uma orelha alerta, outra ligada.

O buraco do espelho está fechado.
Agora eu tenho que ficar agora,
Fui pelo abandono abandonado,
aqui dentro, do lado de fora.

Arnaldo Antunes

quinta-feira, 4 de março de 2010

Frase da Semana

"Na América do Sul, existem 3 nomes de país que começam com B: Brasil, Bolívia e a Bosta da Argentina." (Anônimo)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010


In our darkest hour
In my deepest despair
Will you still care?
Will you be there?
In my trials and my tribulations
Through our doubts and frustrations
In my violence
ln my turbulence
Through my fear and my confessions
In my anguish and my pain
Through my joy and my sorrow.
In the promise of another tomorrow
I'l never let you part
For you're always in my heart.

(Michael Jackson - Will You Be There)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Parabéns pra vocês, nesta data querida...

Hoje é uma data histórica - 5 anos do Jaca de Pantufas!!

Essa bagunça começou em 29 de janeiro de 2005, quando as minhas amigas pantufeiras da faculdade ainda postavam comigo. Agora elas têm seguido outros caminhos (ou serei eu, Senhor?? rsrsrs), mas eu continuo aqui, enfiando o pé na jaca com distinção e louvor. :)

Aos visitantes assíduos, quero agradecer pela paciência de vocês: pelos longos períodos sem novidades e sem postagens, e pelas besteiras que às vezes encontram aqui (hehehe).

Um abração!! e é nóis!!! :D :D :D
Luciene

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Geléia Geral




(Gilberto Gil e Torquato Neto)

Um poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia
Resplandente, cadente, fagueira, num calor girassol com alegria
Na geléia geral brasileira que o Jornal do Brasil anuncia.

Ê, bumba-yê-yê-boi... ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê... é a mesma dança, meu boi.


A alegria é a prova dos nove e a tristeza é teu porto seguro
Minha terra é onde o sol é mais limpo, e Mangueira é onde o samba é mais puro
Tumbadora na selva-selvagem, Pindorama, país do futuro.

Ê, bumba-yê-yê-boi... ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê... é a mesma dança, meu boi.

É a mesma dança na sala, no Canecão, na TV
E quem não dança não fala, assiste a tudo e se cala.
Não vê no meio da sala as relíquias do Brasil:
Doce mulata malvada, um LP de Sinatra...
Maracujá, mês de abril, santo barroco baiano
Superpoder de paisano, formiplac e céu de anil
Três destaques da Portela, carne-seca na janela, alguém que chora por mim
Um carnaval de verdade, hospitaleira amizade, brutalidade jardim.

Ê, bumba-yê-yê-boi... ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê... é a mesma dança, meu boi.

Plurialva, contente e brejeira, a miss linda Brasil diz "bom dia"
E outra moça também, Carolina, da janela examina a folia
Salve o lindo pendão dos seus olhos e a saúde que o olhar irradia.

Ê, bumba-yê-yê-boi... ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê... é a mesma dança, meu boi.


Um poeta desfolha a bandeira e eu me sinto melhor colorido
Pego um jato, viajo, arrebento com o roteiro do sexto sentido
Voz do morro, pilão de concreto: tropicália, bandanas ao vento.

Ê, bumba-yê-yê-boi... ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê... é a mesma dança, meu boi.